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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NA ENCHENTE DO RIO A ENCHENTE DE GENTE.



Quando o rio enche, os cardumes de peixes sobem o rio a deslizar, contra a correnteza, a remontar o rio, a transpor em saltos impressionantes corredeiras e até pequenas cachoeiras, em busca de águas tranqüilas. A Piracema, tupi-guarani pirá hecê piraquã ou melhor, pirá apuã hecê1. “Avenida de pescado” no dicionário de Montoya2.


A “gente” também se acomete como os peixes em busca da salvação, do ganha pão. Ganhando terra, ganhando chão, abrindo trilha, subindo o rio, varando o seu destino. Vias de vidas, vidas pelos caminhos.


1 Pirá – peixe; hecê – saltar; piraquã – cardume; apuã – subir; hecê – aos saltos

2 Padre Antonio Ruiz Montoya (1876)


Leo Carnevale

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Imersão nas Estórias, na Sala d'O Imaginário


Depois do recolhimento de tantas estórias e dos encontros com a Cia. Será O Benidito?! do Rio de Janeiro, a imersão agora é na sala de trabalho d’O Imaginário em Porto Velho, RO.


O diálogo que estabelecemos com as várias pessoas que encontramos em nossas viagens, nos forneceram muito material de pesquisa, estórias e causos da oralidade de nosso povo.


A oralidade é entendida por pesquisadores como a profª Beth Rondelli em seu livro “O Narrado e o Vivido”, como um “conjunto de narrativas” vivenciadas por um grupo que compartilham as mesmas “referências” estéticas e éticas.

“Tais estórias não são exclusivas desse grupo.” Observamos que as mesmas histórias tinham versões diferentes. Mesmo que algumas estórias “possam sugerir semelhanças com outras estórias”, “cada contador é o autor de sua própria estória”.

"Nada retém sua própria forma; a Natureza, a maior renovadora, constantemente cria formas de formas. Certamente nada há que pereça em todo o universo; há apenas variação e renovação de forma." Ovídio, Metamorfoses.


         A convivência com as pessoas de cada localidade da margem do Rio, da ferrovia e da mata, descendentes ou não de famílias que ali estiveram no inicio de sua ocupação, especialmente durante o Ciclo da Borracha, nos proporcionaram uma visão do humano, do drama, das ações e da realidade social. Nosso foco eram os traços culturais: as crenças, os costumes e os diferentes tempos da vida.

As narrativas e as memórias, da presença dos trabalhadores, de diversas nacionalidades, em cada localidade, na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, da extração da seringa e da extração da madeira, são povoadas de várias lendas de encantados e seres da mata e do rio.

Buscar um caminho em meio a tantos caminho ou “varadouros” como são chamados por aqui. Varadouros de trilhos, varadouros de rios, varadouros na mata, procurando proporcionar a vivência destas viagens. Transformar estes dramas, ações, realidades humanas em composição de ações poéticas através da cena teatral é o nosso desafio agora.

Leo Carnevale

Fotos: Arquivos O Imaginário

terça-feira, 12 de julho de 2011

Um Caminho Amazônico - Varadouro


Percebemos em nossas viagens a recorrência nas estórias que íamos recolhendo, nos modos de vida das pessoas e no dia-a-dia das comunidades a questão do “caminho” ou “varadouro*” como chama o povo.


Uma palavra com muitos significados, Varadouro, é para o homem o caminho no meio da mata, o rio ao longo da floresta, os trilhos da estrada de ferro, todos relacionados ao espaço percorrido ou a percorrer.


Estrada ou via de condução de um lugar a outro.


Este caminho os levava de casa ao trabalho, a pesca, ao lazer, aos mistérios, as festas, a reza.



Fotos: Arquivos O Imaginário

Depois de tanta viagem agora nos debruçamos com mais intensidade no material recolhido.
Muitas coisas pra olhar nessa imensidão de rios e matas e trilhos.
E vamos nós, varadouro a dentro.
Abrindo passagem de facão, voadeira ou locomotiva.
Viva a vida! Viva!

*Dic. Aurélio – S. m. Brasileirismo Amazônico, Caminho.


Leo Carnevale

sábado, 9 de abril de 2011

"Nos Trilhos da E.F.M.M."

Caminhar pelos trilhos da velha EFMM é como relembrar de algo que não se viveu, traz uma sensação de que algo estivesse apenas adormecido, é como se flashes de memória com imagens de época viessem em dados momentos, nos remetendo a impressão de tudo aquilo estivesse vivo. Olhando para os velhos dormentes dos trilhos e comparando a idade dos mesmos até parace que resistem ao tempo como se não quisessem ser esquecidos, como se implorassem para que os homens não os deixassem se apagarem no tempo, dá pra sentir que tudo aquilo que se vê conservado através do tempo, é protegido por alguma força que habita aquela região que um dia foi cenário de muitas conquistas e também de muitas dores, mortes, tristezas, desesperos… não se pode ter idéia do que acontecera ao longo da construção da estrada de ferro, contudo pode-se sentir uma energia muito forte que não habita ali por acaso.

Observando a quantidade de ferro e madeira que foi aplicada na construção da E.F.M.M., imagina-se a dificuldade enfrentada por aqueles homens em uma época sem muita tecnologia, onde a força bruta era o principal combustível para a construção, em meio às doenças que assolavam àquelas pessoas, eles foram verdadeiros heróis. Hoje não se consegue imaginar carregar aquela quantidade de material simplesmente na força física.

Isaias Sidnei de Oliveira


"O Passeio de Pesquisa"

No domingo, dia 13 de Fevereiro de 2011, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da história de nosso Estado,  a maravilhosa E.F.M.M.  Começamos  o passeio na Praça da Estrada onde constatamos que apesar  dos anos  que passaram,  a Ferrovia é e sempre será uma gigantesca lembrança  patrimonial e humanística de pessoas que deram suas vida  pra que hoje o Estado pudesse estar se desenvolvendo.

Ao longo do passeio, constatamos alguns descasos que já estamos cansados de saber, denunciados  constantemente pela mídia, tais como a ação de vândalos, a falta de manutenção e a ação do tempo. O passeio foi emocionante, pois apesar de outras vezes feito o mesmo percurso, nunca tinha parado para ver e sentir a inigualável  sensação de energia, algumas ruins, outras boas, e uma imensidão de vestígios da história que por sinal deveriam ser preservados, e não são.

Tive o imenso prazer de conhecer um Senhor que vivenciou a construção da E.F.M.M, cansado pelo peso da idade, mas alegre por ter cumprido uma missão de ser durante longos anos o maquinista do trem, levando e trazendo o sonho de vidas melhores. Pessoas como ele que vivem até os dias de hoje têm o nosso mais sincero respeito, pois contribuiu muito para que o Estado pudesse estar se desenvolvendo. Pessoas como ele fazem parte de uma história viva que mais parece uma lenda, de tão sofrida e tão horrorizaste e que teve uma bela repercussão. Ao longo do caminho percebemos também que alguns tesouros muito valiosos se perderam com o descaso, e com isso posso assumir que a partir de hoje a preservação da história será uma “briga” minha.

Amauri Ribeiro Fernandes



quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Voltar ao passado é progredir”

“Voltar  ao passado é progredir” — esta expressão, que tem se tornado proverbial, revela algumas vezes profunda verdade: em determinadas situações, por mais estranho que pareça, voltar ao passado significa progresso, não retrocesso. Ver aquele “Cemitério de Maquinas – Maria Fumaça”, abandonadas a beira de seus próprios trilhos,  da Ferrovia Madeira Mamoré, deterioradas pela ação do tempo, me fez repensar no Conceito de Vida. Vidas do Passado e Vidas do presente. Vidas que deram suas vidas por aquela construção, vidas que dão suas vida pra viverem ao longo  de uma Ferrovia abandonada. Qual seria a relação destas vidas? Será que prevalece ai o conceito da química, igual atrai o igual? Será que as energias do passado se fundem com a do presente, tornado um habitat ideal pra quem ali vive? Como esta “Pesquisa cênica do Porto ao Rio” está apenas iniciando-se, vamos ter tempo pra conviver com este mistério e tentar compreendê-lo um pouco melhor.

Cláudio Vrena.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Caminhada pelos Trilhos

No último domingo, dia 13/02, fizemos uma caminhada pelos trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (Porto Velho-RO).

Saímos da Praça às 9:30 da manhã e a primeira parada foi logo ali perto: no Galpão da estação, onde estão depositados muitos vagões, máquinas e peças de ferro que um dia já foram úteis à EFMM. Foi interessante reparar na cenografia existente naquele lugar, visto com outros olhos. Seguimos em frente e nos deparamos com uma parte dos trilhos que flutuava no ar: um pedaço da rua tinha desabado e só sobraram os trilhos, ligando um lado ao outro. Para atravessar, tivemos que usar os pequenos barcos que cobravam R$2,00 pela travessia, e é assim que os moradores do local conseguem se locomover do centro da cidade até suas casas.

O caminho era longo, e sempre pelos trilhos, fomos observando tudo à nossa volta e guardando nossas impressões pessoais. Passamos por muitas casinhas de madeira e conversamos com alguns de seus moradores. Vimos também alguns vagões da EFMM abandonados no meio do caminho (e do mato).

Uma figura importante que conhecemos foi o Sr. Carol Oeto Demiy, que foi Maquinista da Madeira-Mamoré e mora até hoje numa casinha verde à beira dos trilhos. Combinamos de fazermos uma visita e conversar com ele com mais calma. Com certeza tem muita história pra contar e vai enriquecer a pesquisa!

Mais um pouco de caminhada e chegamos ao Cemitério da Candelária, onde estão sepultados uma parte dos trabalhadores da ferrovia.

Foi uma caminhada de pouco mais de 3 horas. Nos próximos posts vamos colocando mais fotos, vídeos e as impressões de cada um sobre este dia!



Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré


Galpão


Trilhos sobre o rio


Sr. Demiy, ex-maquinista da Madeira-Mamoré


Cemitério da Candelária


Veja mais fotos:

Caminhada pelos trilhos