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domingo, 3 de abril de 2011

As Ruas do Rio de Janeiro no Século XIX



No inicio do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro era um dos maiores centros urbanos da America Latina. Dentro desses centros urbanos, as casas eram uma espécie de unidade de produção e consumo, onde grande parte dos objetos pessoais e de uso domestico eram fabricados nessas residências. A produção domestica era uma parte para consumo interno e parte do excedente para ser vendido. Grande parte dos objetos pessoais e de uso doméstico era fabricado na própria residência e o excedente para ser vendido nas ruas, pelos próprios escravos das casas. Tais escravos eram chamados de "escravos de ganho".




O comando das atividades ficava a cargo da mulher, a dona da casa. Era ela quem mantinha sob controle a limpeza da casa, a preparação dos alimentos, o comando das escravas, além de dirigir a indústria caseira. Era de grande variedade as mercadorias dos tabuleiros das escravas ou dos escravos - quitutes, bebidas, tecidos e toalhas bordadas – e eram quase sempre orientadas pelas senhoras donas da casa as vendas nas ruas. Os escravos de ganho atuavam no comercio ambulante e nas vendas alegrando a cidade com seus gritos e cantos seguidos de crianças que iam pelas ruas atrás das mães. Carregando em grandes cestas trançadas, tabuleiros de madeira ou caixas sobre as cabeças, escravos de ganho de ambos os sexos vendiam de tudo, “artigos de vestuário, romances e livros, panelas e bules, utensílios de cozinha, cestas e esteiras, velas, poções de amor, estatuas de santos, ervas e flores, pássaros e outros animais e jóias” (GRAHAM, 1988,141).




As ruas ficavam apinhadas de escravos que tentavam de todas as formas possíveis vender seus produtos. Os espaços públicos no Rio de Janeiro do século XIX funcionavam como pontos de convergência - espaços dinâmicos de suporte de artes performáticas. As praças e ruas tornavam-se pontos de encontros e facilitavam distintas formas de interação social entre seus freqüentadores habituais, os escravos. Tais espaços constituíam-se, segundo Brugger, a "base da estrutura e da identidade das primeiras cidades coloniais brasileiras", evoluindo para o acontecimento de "inúmeras formas de interação social" (BRUGGER, 2000). A chegada do peixe fresco ao mercado, as negras vendendo apetitosas frutas tropicais, o transporte de objetos nas carroças ou pessoas em cadeirinhas, pequenos intervalos roubados entre uma atividade e outra dão a medida da diversidade do meio urbano, verdadeiros locais de trabalho, passeios, encontros e performances.




Como uma performance do cotidiano urbano do povo que ocupava as ruas e circulavam com a venda de seus produtos, havia um tipo de canto na cidade que era bastante peculiar. Era o pregão dos vendedores ambulantes, uma espécie de propaganda dos produtos à venda, que anunciavam as mercadorias pelas ruas. No pregão, a performance consistia de cantos e gritos de melodias, em forma rimada, acompanhado ou não de tambor ou violão, verdadeiro jingle de publicidade. Às vezes, paravam para descansar, reunindo-se em torno de um cantor principal e cantando em grupo.




O barulho e as histórias da rua, as idéias e imagens de representação coletiva com suas origens e acomodações dentro do espaço público fascinavam os viajantes que pintavam freqüentemente seus trajes originais. Como define Brook, um verdadeiro "Teatro Rústico" ou, como prefiro nomear uma verdadeira Performance Urbana do Cotidiano, nem por isso menos espetacular. Nas ruas, três elementos marcavam e delimitavam o acontecimento desta Performance Urbana do Cotidiano: A repetição ou o lado mecânico do processo, rodas de cantos e danças que se formavam constantemente; a celebração, ou melhor, a representação que pode tornar presente tradições e mitos ancestrais dando-lhes vida; a assistência, uma platéia sempre participativa. Performances próximas do povo, que se retro alimentavam dele.



O Rio, a capital do Império e principal centro urbano da América do Sul neste período, produzia nas suas ruas música, canto e dança mesclada numa mistura de sons e movimentos, forjando um estilo brasileiro harmonioso e peculiar. A escravidão, nesse caso, era realmente uma cacofonia de tradições culturais ricas e híbridas e criando assim as formas diversas e espetaculares, a cultura da cidade Mas no século XIX, os escravos tinham suas áreas de atuação definida e suas vendas baseadas na agricultura de subsistência, fabricação, manufaturados e comercio, ficando restritos aos setores de baixo status da economia na época.



Hoje, século XXI, quem são os vendedores nas praças, calçadas e ruas? Hoje quem são os escravos modernos e ambulantes, camelôs, crianças, famílias inteiras de rua que transitam por estes espaços. Como são as novas performances do cotidiano urbano do Rio, de circulação de informações, de lazer, de ordem e desordem? Como são e onde estão esses momentos de transgressões espetaculares? As performances foram se adaptando aos novos mundos sociais que por sua vez foram sendo definidos por novas convenções e estabeleceram outro caráter na ocupação destes espaços. Infelizmente, os negros ainda têm uma "subsistência" mínima garantida nas ruas, praias e camelódromos do Rio de Janeiro. Mas o espetacular das ruas e praças está caminhando na mesma linha do que a tradição e da profissionalização do espaço publico, tanto para artistas e pequenos comerciantes informais. Ainda hoje, esse espaço parece estar restringido ao baixo status da economia e da arte das cidades, aonde ainda se tem a perseguição que a polícia faz com freqüência aos ambulantes e artistas, com um suposto “Choque de Ordem”. O artista Martenze Marte, que faz estatua viva, declarou: "Em tempo de paz qualquer pessoa tem o direito de ir e vir com os seus bens e sua arte dentro do que está escrito no artigo 5, parágrafo 9 da Constituição Brasileira”. Este é um exemplo do atual povo de rua que habita os espaços urbanos. Não são mais escravo de ganho, mais são os camelôs, feirantes e artistas os legítimos co-autores da história urbana de um país chamado Brasil.




Martenze Marte


Óculos Madame, na minha mão é mais barato!!!!!!!


É promoção!!!! É pra mocinha!!!!!


Original!!!!!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cores, Sabores, Cheiros e Sons


A feira perdeu seu som. O único som que se escuta é o som do valor da oferta. Não é a atração e sim a competição pelo menor preço. Virou um grande pregão de valores hortifrutigranjeiro.



Andar pelas feiras hoje é algo sem muitas surpresas, sem nada que nos surpreenda ou cative. Porém, se essa caminhada for feita com um olhar mais detalhado, com calma e sem nenhum interesse na compra dos produtos, podemos encontrar um universo encantador. Um verdadeiro elo entre o passado e o presente da humanidade. Pois é, tivemos uma bela e grata surpresa em encontrar a senhora Maria. Ela estava na calçada, atrás de uma barraca, encostada em um muro centenário do centro do Rio. Com uma concentração quase autista, ela exercia uma função de ligação com o passado. Uma volta na história daquele local e no resgate do trabalho manual do início da nossa colonização. Com a paciência e sabedoria de uma senhora de 80 anos de idade e 65 de feira, ela descascava com os dedos o feijão de corda que seria vendido logo em seguida na barraca. Nesse momento percebi o valor da tradição, pois provavelmente se essa senhora não ensinar essa função para alguém, ninguém mais o fará.



Voltemos à feira...


Conversando com um barraqueiro, perguntamos para ele o porquê não se ouve mas os brados, cantos e rimas dos feirantes? Ele respondeu: que as pessoas que trabalham na feira hoje não são mais os feirantes. Hoje eles são comerciantes, não produzem mais, compram direto do CEASA (Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro S/A) e revendem nas feiras e ainda fornecem para pequenas lojas de bairros.




Continuamos a circular, ainda na esperança de encontrar algum som para relatar em nossa pesquisa. Enquanto não encontravamos, fomos pego pelos cheiros, cores e sabores das barracas que encontravamos no caminho. Achamos e provamos seriguelas, pitombas e artigos de vaidades. Percebemos que a escrita agora substitui a fala para atrair o cliente até a banca.



Ainda tem gente que venda arte da arte que é achada no lixo e revendida na feira. Tinha um rapaz vendendo gravuras do Alfred Sisley (1839, Francês de ascendência e nacionalidade britânica) e Albrecht Dürer (1512, Húngaro. Foi nomeado pintor de corte de Maximiliano I), por apenas R$ 5,00 cada gravura, mas por R$ 7,00 levariamos as duas. Além dos alimentos, temos também pintores renomados a venda nas feiras do Rio.



Uma rosca salvou o nosso dia. Isso mesmo, uma rosca...

Estavamos já quase indo embora, quando ao longe ouvimos um canto: Olha ele ai...rosca!!!!





O “Rosca” é a sensação da feira da Glória. É o único que canta e brinca com os clientes. Seu canto é ouvido a mas de 50 metros e causa curiosidade e expectativa com a sua chegada. Ele canta, brada por toda feira. Vende muito, pois seus trocadilhos provocam curiosidade e pela sua simpatia e humor e suas frases encantam e os clientes compram. Ele mesmo estimula que outras pessoas pronunciem seus bordões e suas piadas. Clientes de todas as idades comem a sua rosca. Ele já é uma celebridade da feira. Já foi até entrevistado do Programa do Jô.




Ver e ouvir esse cara é sensacional, pois ele é exatamente o que procuramos na pesquisa. Ele usa de todos os possíveis fundamentos da cameloturgia. Ter o produto, o argumento, um roteiro pré-estabelecido de piadas, um canto que atrai, bom humor, simpatia e muito improviso é o que um bom Cameloturgo tem que ter para conquistar seu público/plateia. Temos muito o que aprender com ele.



Todos esses registro em foto e vídeo está sendo feito por Sandra Calaça que é atriz, produtora, fotografa e é integrante da companhia Será O Benidito?!, desde final de 2010. Vem colaborando na pesquisa da Oralidade e Cameloturgia fazendo esse belíssimo registro de vídeo e fotos nas feiras, ruas e lugares escolhidos para compor a nossa pesquisa. Sandrinha, obrigado pela colaboração com suas belas fotos e seu olhar sensível e aguçado que está acrescentando muito para nossa pesquisa. Obrigado!!!!


Inté breve,


vou ali mais volto já....vou comprar maracujá.