Nos ensaios para a demonstração de Olha o Dado! que nos da Cia Será o Benidito!? apresentaremos no Itaú Rumos, em São Paulo, entramos em contato com um tipo de ator “maestro”. Aquele que rege tanto uma partitura de cenas ensaiadas quanto as variantes da rua interferindo a todo instante. É o cameloturgo André Garcia Alvez que com os seus dados propõe ao cidadão uma relação diferente, um jogo divertido. Invertendo a relação com a própria cidade. E, como conseqüência ou premissa, acaba por reinventar-se. É também um dado variante, que varia a cada instante.
Para esse ator, tudo é estímulo para o seu jogo. Ele é ator, autor, diretor, produtor, contraregra de seu trabalho. E, muitas vezes, é tudo isso ao mesmo tempo de acordo com as necessidades da rua. A demanda da rua acaba por determinar as necessidades deste trabalho do cameloturgo. A rua é viva. Pulsante.
E o cameloturgo com as suas múltiplas antenas capta e muda os rumos do trabalho – sem perder a essência - de acordo com as necessidades vindas do público; a mulher apressada que corta a roda sem se dar conta da apresentação: A senhora tem dado em casa? Além de inusitados acontecimentos – o bailarino que repentinamente adentra a cena - Música de Ballet para ele bailar! Além dos múltiplos sons da cidade que a qualquer momento podem interferir - como os quatro helicópteros que sobrevoavam os céus do Recreio dos Bandeirantes. Eles vieram me homenagear. Ou o badalar dos sinos da igreja na praça em que se apresenta: é o sino anunciando a próxima cena.
O cameloturgo está no espaço público, no espaço de todos. Não só dele. Ele reparte o espaço com o restante da população; com o passante, o gringo, o mendigo, a moça, o bêbado, o casal, o trabalhador, a criança. E fala de perto ao coração de cada um. Olha no olho de cada um. Chama-os pelo nome. Brinca com cada um. È nesse instante – através do humor - que começa a ter com cada pessoa uma relação próxima quase de cumplicidade, ao adquirir a confiança deles, começa a trazê-los para a roda.
E uma grande roda vai-se formando com a participação espontânea de cada anônimo que adquire uma identidade e uma cidadania plena ao estabelecer com a rua e com os outros cidadãos uma relação igualitária, através do humor e da brincadeira.








Porque e pra quem passar o chapéu? Será que é para manter a tradição e a cultura da valorização dos sentimentos humanos ou a sobrevivência? Esse gesto mantém o publico habituado a contribuir com o que viu e gostou. Muitos artistas não conseguem um patrocínio, apoio ou estimulo financeiro para estarem nas ruas. Porém, se os que conseguem não mantiverem essa relação de troca com a platéia, os muitos que sem o respaldo financeiro de projetos ou captação, passarem pelas mesmas praças que outros subvencionados passam e não roda o chapéu, a relação afetiva da troca não foi estabelecido. Quem quis e não contribuiu ou que não foi estimulado a colaborar, certamente se sentira constrangido ou sem o interesse em contribuir e dar o que instintivamente daria. Tem que difundir a idéia de que o publico é o grande patrocinador da arte de rua e da cultura nacional. Contribuir no chapéu é uma das formas que o publico tem de expressar o quanto gostou e quer contribuir da forma que pode, com quanto pode e quando pode com o que acabou de assistir.
Todas essas formas e estratégias de passar o chapéu é um estimulo ao exercício da Cameloturgia. Vale usar nessa hora a habilidade de uma boa conversa e um bom argumento para na hora certa passar o chapéu. Transformar o chapéu em uma atração pode ser um divertimento a mais para o publico, que entende o código e o momento de sua participação. 




