quinta-feira, 14 de abril de 2011

Primeiro encontro: O Imaginário no Rio de Janeiro

O grupo rondoniense O IMAGINÁRIO viaja para o Rio de Janeiro para uma residência artística/encontro presencial com a “Cia Será o Benidito?”, no período de 15 a 26 de Abril. O encontro entre os dois coletivos terá como foco a continuidade da pesquisa cênica: oralidade e cameloturgia, selecionado pelo Instituto Itaú Cultural – Rumos de Teatro 2010-2012.
 
O projeto: "A Oralidade e a Cameloturgia – uma pesquisa cênica do Porto ao Rio" constitui de uma ação em conjunto dos grupos: O Imaginário, de Rondônia, e a Cia. Será O Benidito?! do Rio de Janeiro. A intenção é promover trocas e em seguida fazer uma fusão dos dois estudos, canalizando toda a experimentação, as vivências, os estudos e as pesquisas no sentido de fortalecer e estabelecer um diálogo capaz de instaurar um processo criativo e cênico.

A pesquisa cênica envolverá prática de criação, de formação e de pesquisa histórica baseada na oralidade e de sistematização de processos dramatúrgicos da cameloturgia. 
O projeto terá dois encontros presenciais, sendo um no Rio de janeiro, no período de 15 a 26 de Abril e outro em Porto Velho, no período de 12 a 22 de Maio e ainda uma demonstração no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, no período de 26 de Agosto a 04 de Setembro de 2011.

O Projeto terá como base de estudo:
- No Porto (menção ao Porto de Santo Antônio do Madeira, no início da Construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e do surgimento de Porto Velho). Realizar estudo e pesquisa cênica que tem como foco as narrativas e as memórias, buscando na oralidade: as crenças, os costumes e os traços culturais de diferentes tempos, a partir de fatos históricos, e da importância da presença dos trabalhadores de diversas etnias (nacionalidades), no período da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, dando um sentido humano e universal, transformando o drama e as ações humanas da realidade social da época em composição de ações físicas e poéticas para finalização em um texto inédito para encenação/montagem ou divulgação pública, para ampliar a produção e a difusão e ainda o fortalecimento do trabalho de teatro de grupos.
 
- No Rio (menção à Cidade do Rio de Janeiro). Realizar estudo e pesquisa cênica que tem como foco a Cameloturgia: A Cena e o Chapéu, com base no camelô de rua e na dramaturgia popular. Além de relacionar a cameloturgia a tradição milenar do “Chapéu”. O roteiro, a dramaturgia fragmentada e de improviso dos camelôs é a dos artistas de rua e da cultura popular. O Cameloturgo é o dramaturgo das suas histórias e de sua arte popular, assim como os eternos e atraentes bordões, verbetes, brados e trovas dos feirantes. Culminando na criação de um texto inédito construído para encenação/montagem ou divulgação pública.
 
Em Petrópolis um encontro com a origem de nossa história
Serão várias atividades na cidade do Rio de Janeiro, entre elas uma visita ao Museu Imperial, em Petrópolis, cidade onde foi assinado o “tratado de Petrópolis”. O Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903 pelo BARÃO DO RIO BRANCO e ASSIS BRASIL, foi aprovado por lei federal de 25 de fevereiro de 1904, regulamentada por decreto presidencial de 7 de abril de 1904, incorporando o Acre como território brasileiro. Pela anexação do território do Acre o Governo Brasileiro se comprometeu em construir a Ferrovia (Estrada de Ferro Madeira Mamoré) e a ponte sobre o rio Mamoré criando uma saída para a exportação dos produtos da Bolívia pelo Oceano Atlântico.
 
Em busca de fatos e imagens dos nossos antepassados
O Imaginário, através de seu núcleo de pesquisadores, vem fazendo uma varredura na região para descobrir fatos de interesse para a pesquisa. No ano passado, em novembro, uma viagem pelas águas em 30 dias de barco, de Porto Velho a Manaus, buscando em cada localidade ao longo do Rio Madeira fragmentos deixados pelos trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Foi uma viagem instigante e os objetivos foram as sensações e as emoções sentidas pelos trabalhadores, valendo-se da sensorialidade e das experimentações.
 
Os trilhos da Estada de Ferro são veias para a vida da investigação, percorremos vários quilômetros, visitamos cemitérios e buscamos nas fontes bibliográficas e nas oralidades dos remanescentes dos trabalhadores um sentido para nossa pesquisa. 
 
Visitamos os Museus em Manaus, Guajará-Mirim e Rio de Janeiro, conversamos com historiadores e sempre estamos passeando pelo passado. 

Sobre o Programa Rumos Itaú Cultural Teatro
A primeira edição do Rumos Itaú Cultural Teatro tem como finalidade promover um intercâmbio entre teatros de grupo de todas as regiões do Brasil, contribuindo para a articulação desses coletivos e para o desenvolvimento de pesquisa na área teatral.
Para acompanhar esses processos, cada projeto terá um blog com o objetivo de apresentar a pesquisa, o seu contexto, os procedimentos etc., além de assumir a função de registro, os dois grupos manterão o blog: http://oralidadecameloturgia.blogspot.com/
Espera-se que sejam arquivos vivos que incitem o pensar, o buscar e o dialogar. Talvez discursar sobre uma construção não seja tarefa fácil, portanto esses blogs devem ser entendidos como lugar de experimentação.
 
O projeto é totalmente patrocinado pelo Instituto Itaú Cultural Rumos Teatro e a residência artística no Rio de Janeiro recebe importantes apoios como da Fundação Nacional de Artes – Funarte, Casa Pascoal Carlos Magno/Teatro Duce, SECEL e SEMED.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma Aventura Fotográfica

O Imaginário esteve em Manaus - AM e visitou o museu que guarda livros, fotos e outros registros históricos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, dos trabalhadores em serviço, dos primeiros trilhos sendo colocados...


"Os construtores de ruínas ou morte e progresso"





"Dana Merrill, o exímio fotógrafo nova-iorquino, já sabia, decerto, quando desembarcou em Porto Velho, em 1909, da verdadeira saga que seria registrar, em imagens por ele fixadas, os cenários, personagens e ações de um drama único: o trabalho de construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, nos extremos da Amazônia Ocidental Brasileira."

Livro "Estrada de Ferro Madeira-Mamoré"

sábado, 9 de abril de 2011

"Nos Trilhos da E.F.M.M."

Caminhar pelos trilhos da velha EFMM é como relembrar de algo que não se viveu, traz uma sensação de que algo estivesse apenas adormecido, é como se flashes de memória com imagens de época viessem em dados momentos, nos remetendo a impressão de tudo aquilo estivesse vivo. Olhando para os velhos dormentes dos trilhos e comparando a idade dos mesmos até parace que resistem ao tempo como se não quisessem ser esquecidos, como se implorassem para que os homens não os deixassem se apagarem no tempo, dá pra sentir que tudo aquilo que se vê conservado através do tempo, é protegido por alguma força que habita aquela região que um dia foi cenário de muitas conquistas e também de muitas dores, mortes, tristezas, desesperos… não se pode ter idéia do que acontecera ao longo da construção da estrada de ferro, contudo pode-se sentir uma energia muito forte que não habita ali por acaso.

Observando a quantidade de ferro e madeira que foi aplicada na construção da E.F.M.M., imagina-se a dificuldade enfrentada por aqueles homens em uma época sem muita tecnologia, onde a força bruta era o principal combustível para a construção, em meio às doenças que assolavam àquelas pessoas, eles foram verdadeiros heróis. Hoje não se consegue imaginar carregar aquela quantidade de material simplesmente na força física.

Isaias Sidnei de Oliveira


"O Passeio de Pesquisa"

No domingo, dia 13 de Fevereiro de 2011, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da história de nosso Estado,  a maravilhosa E.F.M.M.  Começamos  o passeio na Praça da Estrada onde constatamos que apesar  dos anos  que passaram,  a Ferrovia é e sempre será uma gigantesca lembrança  patrimonial e humanística de pessoas que deram suas vida  pra que hoje o Estado pudesse estar se desenvolvendo.

Ao longo do passeio, constatamos alguns descasos que já estamos cansados de saber, denunciados  constantemente pela mídia, tais como a ação de vândalos, a falta de manutenção e a ação do tempo. O passeio foi emocionante, pois apesar de outras vezes feito o mesmo percurso, nunca tinha parado para ver e sentir a inigualável  sensação de energia, algumas ruins, outras boas, e uma imensidão de vestígios da história que por sinal deveriam ser preservados, e não são.

Tive o imenso prazer de conhecer um Senhor que vivenciou a construção da E.F.M.M, cansado pelo peso da idade, mas alegre por ter cumprido uma missão de ser durante longos anos o maquinista do trem, levando e trazendo o sonho de vidas melhores. Pessoas como ele que vivem até os dias de hoje têm o nosso mais sincero respeito, pois contribuiu muito para que o Estado pudesse estar se desenvolvendo. Pessoas como ele fazem parte de uma história viva que mais parece uma lenda, de tão sofrida e tão horrorizaste e que teve uma bela repercussão. Ao longo do caminho percebemos também que alguns tesouros muito valiosos se perderam com o descaso, e com isso posso assumir que a partir de hoje a preservação da história será uma “briga” minha.

Amauri Ribeiro Fernandes



quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Voltar ao passado é progredir”

“Voltar  ao passado é progredir” — esta expressão, que tem se tornado proverbial, revela algumas vezes profunda verdade: em determinadas situações, por mais estranho que pareça, voltar ao passado significa progresso, não retrocesso. Ver aquele “Cemitério de Maquinas – Maria Fumaça”, abandonadas a beira de seus próprios trilhos,  da Ferrovia Madeira Mamoré, deterioradas pela ação do tempo, me fez repensar no Conceito de Vida. Vidas do Passado e Vidas do presente. Vidas que deram suas vidas por aquela construção, vidas que dão suas vida pra viverem ao longo  de uma Ferrovia abandonada. Qual seria a relação destas vidas? Será que prevalece ai o conceito da química, igual atrai o igual? Será que as energias do passado se fundem com a do presente, tornado um habitat ideal pra quem ali vive? Como esta “Pesquisa cênica do Porto ao Rio” está apenas iniciando-se, vamos ter tempo pra conviver com este mistério e tentar compreendê-lo um pouco melhor.

Cláudio Vrena.



domingo, 3 de abril de 2011

As Ruas do Rio de Janeiro no Século XIX



No inicio do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro era um dos maiores centros urbanos da America Latina. Dentro desses centros urbanos, as casas eram uma espécie de unidade de produção e consumo, onde grande parte dos objetos pessoais e de uso domestico eram fabricados nessas residências. A produção domestica era uma parte para consumo interno e parte do excedente para ser vendido. Grande parte dos objetos pessoais e de uso doméstico era fabricado na própria residência e o excedente para ser vendido nas ruas, pelos próprios escravos das casas. Tais escravos eram chamados de "escravos de ganho".




O comando das atividades ficava a cargo da mulher, a dona da casa. Era ela quem mantinha sob controle a limpeza da casa, a preparação dos alimentos, o comando das escravas, além de dirigir a indústria caseira. Era de grande variedade as mercadorias dos tabuleiros das escravas ou dos escravos - quitutes, bebidas, tecidos e toalhas bordadas – e eram quase sempre orientadas pelas senhoras donas da casa as vendas nas ruas. Os escravos de ganho atuavam no comercio ambulante e nas vendas alegrando a cidade com seus gritos e cantos seguidos de crianças que iam pelas ruas atrás das mães. Carregando em grandes cestas trançadas, tabuleiros de madeira ou caixas sobre as cabeças, escravos de ganho de ambos os sexos vendiam de tudo, “artigos de vestuário, romances e livros, panelas e bules, utensílios de cozinha, cestas e esteiras, velas, poções de amor, estatuas de santos, ervas e flores, pássaros e outros animais e jóias” (GRAHAM, 1988,141).




As ruas ficavam apinhadas de escravos que tentavam de todas as formas possíveis vender seus produtos. Os espaços públicos no Rio de Janeiro do século XIX funcionavam como pontos de convergência - espaços dinâmicos de suporte de artes performáticas. As praças e ruas tornavam-se pontos de encontros e facilitavam distintas formas de interação social entre seus freqüentadores habituais, os escravos. Tais espaços constituíam-se, segundo Brugger, a "base da estrutura e da identidade das primeiras cidades coloniais brasileiras", evoluindo para o acontecimento de "inúmeras formas de interação social" (BRUGGER, 2000). A chegada do peixe fresco ao mercado, as negras vendendo apetitosas frutas tropicais, o transporte de objetos nas carroças ou pessoas em cadeirinhas, pequenos intervalos roubados entre uma atividade e outra dão a medida da diversidade do meio urbano, verdadeiros locais de trabalho, passeios, encontros e performances.




Como uma performance do cotidiano urbano do povo que ocupava as ruas e circulavam com a venda de seus produtos, havia um tipo de canto na cidade que era bastante peculiar. Era o pregão dos vendedores ambulantes, uma espécie de propaganda dos produtos à venda, que anunciavam as mercadorias pelas ruas. No pregão, a performance consistia de cantos e gritos de melodias, em forma rimada, acompanhado ou não de tambor ou violão, verdadeiro jingle de publicidade. Às vezes, paravam para descansar, reunindo-se em torno de um cantor principal e cantando em grupo.




O barulho e as histórias da rua, as idéias e imagens de representação coletiva com suas origens e acomodações dentro do espaço público fascinavam os viajantes que pintavam freqüentemente seus trajes originais. Como define Brook, um verdadeiro "Teatro Rústico" ou, como prefiro nomear uma verdadeira Performance Urbana do Cotidiano, nem por isso menos espetacular. Nas ruas, três elementos marcavam e delimitavam o acontecimento desta Performance Urbana do Cotidiano: A repetição ou o lado mecânico do processo, rodas de cantos e danças que se formavam constantemente; a celebração, ou melhor, a representação que pode tornar presente tradições e mitos ancestrais dando-lhes vida; a assistência, uma platéia sempre participativa. Performances próximas do povo, que se retro alimentavam dele.



O Rio, a capital do Império e principal centro urbano da América do Sul neste período, produzia nas suas ruas música, canto e dança mesclada numa mistura de sons e movimentos, forjando um estilo brasileiro harmonioso e peculiar. A escravidão, nesse caso, era realmente uma cacofonia de tradições culturais ricas e híbridas e criando assim as formas diversas e espetaculares, a cultura da cidade Mas no século XIX, os escravos tinham suas áreas de atuação definida e suas vendas baseadas na agricultura de subsistência, fabricação, manufaturados e comercio, ficando restritos aos setores de baixo status da economia na época.



Hoje, século XXI, quem são os vendedores nas praças, calçadas e ruas? Hoje quem são os escravos modernos e ambulantes, camelôs, crianças, famílias inteiras de rua que transitam por estes espaços. Como são as novas performances do cotidiano urbano do Rio, de circulação de informações, de lazer, de ordem e desordem? Como são e onde estão esses momentos de transgressões espetaculares? As performances foram se adaptando aos novos mundos sociais que por sua vez foram sendo definidos por novas convenções e estabeleceram outro caráter na ocupação destes espaços. Infelizmente, os negros ainda têm uma "subsistência" mínima garantida nas ruas, praias e camelódromos do Rio de Janeiro. Mas o espetacular das ruas e praças está caminhando na mesma linha do que a tradição e da profissionalização do espaço publico, tanto para artistas e pequenos comerciantes informais. Ainda hoje, esse espaço parece estar restringido ao baixo status da economia e da arte das cidades, aonde ainda se tem a perseguição que a polícia faz com freqüência aos ambulantes e artistas, com um suposto “Choque de Ordem”. O artista Martenze Marte, que faz estatua viva, declarou: "Em tempo de paz qualquer pessoa tem o direito de ir e vir com os seus bens e sua arte dentro do que está escrito no artigo 5, parágrafo 9 da Constituição Brasileira”. Este é um exemplo do atual povo de rua que habita os espaços urbanos. Não são mais escravo de ganho, mais são os camelôs, feirantes e artistas os legítimos co-autores da história urbana de um país chamado Brasil.




Martenze Marte


Óculos Madame, na minha mão é mais barato!!!!!!!


É promoção!!!! É pra mocinha!!!!!


Original!!!!!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cores, Sabores, Cheiros e Sons


A feira perdeu seu som. O único som que se escuta é o som do valor da oferta. Não é a atração e sim a competição pelo menor preço. Virou um grande pregão de valores hortifrutigranjeiro.



Andar pelas feiras hoje é algo sem muitas surpresas, sem nada que nos surpreenda ou cative. Porém, se essa caminhada for feita com um olhar mais detalhado, com calma e sem nenhum interesse na compra dos produtos, podemos encontrar um universo encantador. Um verdadeiro elo entre o passado e o presente da humanidade. Pois é, tivemos uma bela e grata surpresa em encontrar a senhora Maria. Ela estava na calçada, atrás de uma barraca, encostada em um muro centenário do centro do Rio. Com uma concentração quase autista, ela exercia uma função de ligação com o passado. Uma volta na história daquele local e no resgate do trabalho manual do início da nossa colonização. Com a paciência e sabedoria de uma senhora de 80 anos de idade e 65 de feira, ela descascava com os dedos o feijão de corda que seria vendido logo em seguida na barraca. Nesse momento percebi o valor da tradição, pois provavelmente se essa senhora não ensinar essa função para alguém, ninguém mais o fará.



Voltemos à feira...


Conversando com um barraqueiro, perguntamos para ele o porquê não se ouve mas os brados, cantos e rimas dos feirantes? Ele respondeu: que as pessoas que trabalham na feira hoje não são mais os feirantes. Hoje eles são comerciantes, não produzem mais, compram direto do CEASA (Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro S/A) e revendem nas feiras e ainda fornecem para pequenas lojas de bairros.




Continuamos a circular, ainda na esperança de encontrar algum som para relatar em nossa pesquisa. Enquanto não encontravamos, fomos pego pelos cheiros, cores e sabores das barracas que encontravamos no caminho. Achamos e provamos seriguelas, pitombas e artigos de vaidades. Percebemos que a escrita agora substitui a fala para atrair o cliente até a banca.



Ainda tem gente que venda arte da arte que é achada no lixo e revendida na feira. Tinha um rapaz vendendo gravuras do Alfred Sisley (1839, Francês de ascendência e nacionalidade britânica) e Albrecht Dürer (1512, Húngaro. Foi nomeado pintor de corte de Maximiliano I), por apenas R$ 5,00 cada gravura, mas por R$ 7,00 levariamos as duas. Além dos alimentos, temos também pintores renomados a venda nas feiras do Rio.



Uma rosca salvou o nosso dia. Isso mesmo, uma rosca...

Estavamos já quase indo embora, quando ao longe ouvimos um canto: Olha ele ai...rosca!!!!





O “Rosca” é a sensação da feira da Glória. É o único que canta e brinca com os clientes. Seu canto é ouvido a mas de 50 metros e causa curiosidade e expectativa com a sua chegada. Ele canta, brada por toda feira. Vende muito, pois seus trocadilhos provocam curiosidade e pela sua simpatia e humor e suas frases encantam e os clientes compram. Ele mesmo estimula que outras pessoas pronunciem seus bordões e suas piadas. Clientes de todas as idades comem a sua rosca. Ele já é uma celebridade da feira. Já foi até entrevistado do Programa do Jô.




Ver e ouvir esse cara é sensacional, pois ele é exatamente o que procuramos na pesquisa. Ele usa de todos os possíveis fundamentos da cameloturgia. Ter o produto, o argumento, um roteiro pré-estabelecido de piadas, um canto que atrai, bom humor, simpatia e muito improviso é o que um bom Cameloturgo tem que ter para conquistar seu público/plateia. Temos muito o que aprender com ele.



Todos esses registro em foto e vídeo está sendo feito por Sandra Calaça que é atriz, produtora, fotografa e é integrante da companhia Será O Benidito?!, desde final de 2010. Vem colaborando na pesquisa da Oralidade e Cameloturgia fazendo esse belíssimo registro de vídeo e fotos nas feiras, ruas e lugares escolhidos para compor a nossa pesquisa. Sandrinha, obrigado pela colaboração com suas belas fotos e seu olhar sensível e aguçado que está acrescentando muito para nossa pesquisa. Obrigado!!!!


Inté breve,


vou ali mais volto já....vou comprar maracujá.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

É Dia de Feira!!!!!!!



A feira é uma tradição cultural e na história da humanidade está repleta de referências a feiras. Não se sabe ao certo onde e quando apareceu a primeira feira, no entanto há dados que nos permitem afirmar que em 500 a.C. já havia feiras no Médio Oriente. As primeiras referências a feiras aparecem misturas com referências ao comércio, às festividades religiosas e aos dias santos. As feiras sempre revelaram um carácter comercial desde o início. Mercadores de terras distantes juntavam-se, trazendo os seus produtos autóctones para troca por outros. É também evidente que a religião andou de mãos dadas com o comércio. A palavra latina feria, que significa dia santo, feriado, é a palavra que deu origem à portuguesa feira, à espanhola feria ou à inglesa fair. As feiras são uma das mais importantes instituições do período medieval em Portugal. Quase todas as feiras se realizavam em épocas relacionadas com festas de Igreja e, no local onde se faziam, existia uma paz especial, a paz da feira, que proibia todos os actos de hostilidade, sob penas severas em caso de transgressão. Durante a realização das feiras medievais interrompiam-se guerras, a paz era garantida para que os vendedores, dispostos lado-a-lado, pudessem trabalhar com segurança. Da mesma maneira, guardas vigiavam todo o perímetro de modo a evitar que algum desordeiro pudesse causar incómodos aqueles que por ali passavam e desejavam efectuar suas compras. Os mercadores medievais realizavam as transições comerciais e intermediavam trocas numa actividade eminentemente itinerante. A origem das feiras livres no Brasil confunde-se com a sua própria história. Desde o período do Brasil Colônia, elas multiplicaram-se, assumindo importante papel, não apenas no abastecimento, mas como fundamental elemento que estrutura a própria organização social e econômica da população. Com a paz estalada e as feiras lotadas de vendedores e compradores, estavam lá, em meio a essas multidão de pessoas dezenas de saltimbancos, pregoeiros, trovadores e artistas fazendo seus malabarismos, cantos e procuravam divertir o povo que se movia de barraca em barraca, prosseguindo nas compras. Performances e açoes desenvolvidos dentro das feiras populares sempre aconteceu e sempre acontecerá, pois a essas performances estão ligados ao genuino e espotaneo das feiras. Nas feiras a concorrência é grande, pois existem várias barracas que vendem os mesmos produtos. Para atrair os clientes, os feirantes gritam, demonstrando a qualidade de seus produtos aos clientes ou através de frases engraçadas, brincando com a freguesia, tornando o ambiente bem descontraído e animado. Dentre as frases temos: “moça bonita não paga, mas também não leva”, “Gostoso não é? Pode experimentar outra vez”, “aqui é barato, o marido da barata”, “pega no melão que aqui ele tá bom”. Esses bordões e frases já são parte de uma cultura oral milenar, pois a séculos eles são repetidos e renovados ininterruptamente. Mesmo hoje, em plena sociedade da informação, dos mercados virtuais e da economia globalizada, as feiras persistem como um traço sócio-cultural que identifica regiões e a uma realidade muito distante e permanente na comunicação da humanidade.



Banana Prata Só Paga R$ 2....

Esse é o primeiro vídeo da 1ª etapa da nossa pesquisa. Optamos em começar nas feiras livres da cidade do Rio de Janeiro, pois nas feiras está a origem de nossa pesquisa. Nas feiras medievais está a origem da "Cameloturgia", da teatralidade através da oralidade. Mesmo que as feiras atuais tenham perdido uma boa parte de seus atraentes verso, rimas e brados, substituídos por anúncios dos preços sem nenhum carisma ou diferencial.





Quando estavamos caminhando pela feira do Bairro de Fátima, no Centro do Rio de Janeiro, um cântico chegou aos nossos ouvido e aguçou a nossa curiosidade. Não era só mais um anuncio de preço, mas sim um canto com graça, ritmo e bem simpático que se destacava no meio do burburinho da feira. Banana Prata só paga dois reais..... Não era o preço, pois é o mesmo em todas as bancas, mas era o canto e o carisma do vendedor que atraia muitos clientes. Ele vende muito mais que seus concorrentes. Fica a duvida: Será que o consumidor/publico prefere um vendedor/ator mais convidativo e espontâneo ou introspectivo e sisudo?




Procurando algo na oralidade e sonoridade que desperta-se a noss atenção. Andamos por boa parte da feira, até que um canto chamou a atenção. De longe se ouvia: Banana Prata só paga R$ 2,00... Não era só mais uma divulgação de valor ou mercadoria, não. Era uma musicalidade diferenciada do burburinho da feira. Um canto alegre ritmado e simpático. Percebemos que a barraca estava cheia e o feirante (Luis Carlos), estava atendendo a todos os clientes com a mesma simpática, ritmo e agilidade da musica. Ele só para de cantar para saber quantas dúzias o cliente vai levar. Logo em seguida volta a cantar e improvisar suas rimas, versos e seus bordões com seu inglês todo particular. Ele vende muito e não para de cantar, brincar, rimar e atender em nenhum momento. Reparei que os outros vendedores de banana não são muito comunicativos e em sua maioria são sisudos. E em contra ponto, pelo mesmo preço, Luis Carlos está sempre de bom humor, sorridente e com uma energia inquietante que irradia e contagia seus clientes. Não podemos deixar de perceber que a tradição dos brados, cantorias e rimas estão se perdendo. A função espetacular da feira está perdendo espaço para a comercialização dos produtos, sem a relação com os moradores do bairro, sem a menor atração ou sedução cênica ou afetiva. A venda e o anuncio agora é só do preço e do produto. As feiras estão perdendo espaço para as lojas de hortifruti e por isso os feirantes estão se afastando de suas tradições. Ainda é o espaço para a venda de hortifrutigranjeiro, porém somente a venda sem nenhuma relação com o passado ou com o espetacular. E quando eu que pesquiso ou vou comprar na feira, não estou me importando com o preço, pois quase todas as barracas trabalham o mesmo preço de venda. O que gera a tração é o que chega aos ouvidos do comprador/pesquisador e o eleva até a barraca para comprar e sair com a sensação de que vez a melhor escolha. Fica a duvida Tostines: Será que ele vende mais porque canta ou o canto dele que faz ele vender mais? Olha a banana prata, só paga R$2,00.......

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Caminhada pelos Trilhos

No último domingo, dia 13/02, fizemos uma caminhada pelos trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (Porto Velho-RO).

Saímos da Praça às 9:30 da manhã e a primeira parada foi logo ali perto: no Galpão da estação, onde estão depositados muitos vagões, máquinas e peças de ferro que um dia já foram úteis à EFMM. Foi interessante reparar na cenografia existente naquele lugar, visto com outros olhos. Seguimos em frente e nos deparamos com uma parte dos trilhos que flutuava no ar: um pedaço da rua tinha desabado e só sobraram os trilhos, ligando um lado ao outro. Para atravessar, tivemos que usar os pequenos barcos que cobravam R$2,00 pela travessia, e é assim que os moradores do local conseguem se locomover do centro da cidade até suas casas.

O caminho era longo, e sempre pelos trilhos, fomos observando tudo à nossa volta e guardando nossas impressões pessoais. Passamos por muitas casinhas de madeira e conversamos com alguns de seus moradores. Vimos também alguns vagões da EFMM abandonados no meio do caminho (e do mato).

Uma figura importante que conhecemos foi o Sr. Carol Oeto Demiy, que foi Maquinista da Madeira-Mamoré e mora até hoje numa casinha verde à beira dos trilhos. Combinamos de fazermos uma visita e conversar com ele com mais calma. Com certeza tem muita história pra contar e vai enriquecer a pesquisa!

Mais um pouco de caminhada e chegamos ao Cemitério da Candelária, onde estão sepultados uma parte dos trabalhadores da ferrovia.

Foi uma caminhada de pouco mais de 3 horas. Nos próximos posts vamos colocando mais fotos, vídeos e as impressões de cada um sobre este dia!



Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré


Galpão


Trilhos sobre o rio


Sr. Demiy, ex-maquinista da Madeira-Mamoré


Cemitério da Candelária


Veja mais fotos:

Caminhada pelos trilhos